Linda-a-vêlha
Mesmo a propósito, os constantes, e sibilantes, "ch's" dos pivôs começam a tirar-me do sério, encontrei uma série de textos sobre o assunto. Publicados há mais de meia década, permanecem perfeitamente actualizados.
Crónica do Falar Lisboetês
Vital Moreira, Público de 4 de Janeiro de 2000
De súbito, o homem do quiosque de Lisboa a quem eu pedira os meus jornais habituais interpelou-me:
- O senhor é do Norte, não é?
Respondi-lhe que não, que nasci na Bairrada e que resido há quase 40 anos em Coimbra. Fitou-me perplexo. Logo compreendi que do ponto de vista de Lisboa tudo o que fique para cima de Caneças pertence ao Norte, uma vaga região que desce desde a Galiza até às portas da capital. Foi a minha vez de indagar porque é que me considerava oriundo do Norte. Respondeu de pronto que era pela forma como eu falava, querendo com isso significar obviamente que eu não falava a língua tal como se fala na capital, que para ele, presumivelmente, não poderia deixar de ser a forma autorizada de falar português.
Foi a primeira vez que tal me aconteceu. Julgava eu que falava um português padrão, normalmente identificado com a forma como se fala "grosso modo" entre Coimbra e Lisboa e cuja versão erudita foi sendo irradiada desde o século XVI pela Universidade de Coimbra, durante muitos séculos a única universidade portuguesa. Afinal via-me agora reduzido à patológica condição de falante de um dialecto do Norte, um desvio algo assim como a fala madeirense ou a açoriana.
Na verdade - logo me recordei -, não é preciso ser especialista para verificar as evidentes particularidades do falar alfacinha dominante. Por exemplo, "piscina" diz-se "pichina", "disciplina" diz-se "dichiplina". E a mesma anomalia de pronúncia se verifica geralmente em todos os grupos "sce" ou "sci": "crecher" em vez de "crescer", "seichentos" em vez de "seiscentos", e assim por diante.
O mesmo sucede quando uma palavra terminada em "s" é seguida de outra começada por "si" ou "se". Por exemplo, a expressão "os sintomas" sai algo parecido com "uchintomas", "dois sistemas" como "doichistemas". Ainda na mesma linha a própria pronúncia "de Lisboa" soa tipicamente a "L'jboa".
Outra divergência notória tem a ver com a pronúncia dos conjuntos "-elho" ou" -enho", que soam cada vez mais como "-ânho" ou "-âlho", como ocorre por exemplo em "coelho", "joelho", "velho", frequentemente ditos como "coâlho", "joâlho" e "vâlho".
Uma outra tendência cada vez mais vulgar é a de comer os sons, sobretudo a sílaba final, que fica reduzida a uma consoante aspirada. Por exemplo: "pov'" ou "continent'", em vez de "povo" e de "continente". Mas essa fonofagia não se limita às sílabas finais. Se se atentar na pronúncia da palavra "Portugal", ela soa muitas vezes como algo parecido com "P'rt'gâl".
O que é mais grave é que esta forma de falar lisboeta não se limita às classes populares, antes é compartilhada crescentemente por gente letrada e pela generalidade do mundo da comunicação audiovisual, estando por isso a expandir-se, sob a poderosa influência da rádio e da televisão.
Penso que não se trata de um desenvolvimento linguístico digno de aplauso. Este falar português, cada vez mais cheio de "chês" e de "jês", é francamente desagradável ao ouvido, afasta cada vez mais a pronúncia em relação à grafia das palavras e torna o português europeu uma língua de sonoridade exótica, cada vez mais incompreensível já não somente para os espanhóis (apesar da facilidade com que nós os entendemos a eles), mas inclusive para os brasileiros, cujo português mantém a pronúncia bem aberta das vogais e uma rigorosa separação de todas as sílabas das palavras.
A propósito do português do Brasil, vou contar uma pequena história que se passou comigo. Na minha primeira visita a esse país, fui uma vez convidado para um programa de televisão em Florianópolis (Santa Catarina). Logo me avisaram que precisava de falar devagar e tentar não comer os sons, sob pena de não ser compreendido pelo público brasileiro, que tem enormes dificuldades em compreender a língua comum, tal como falada correntemente em Portugal. Devo ter-me saído airosamente do desafio, porque, no final, já em "off", o entrevistador comentou: "O senhor fala muito bem português." (Queria ele dizer que eu tinha falado um português inteligível para o ouvido brasileiro.) Não me ocorreu melhor do que retorquir:
- Sabe, fomos nós que o inventámos...
Por vezes conto esta estória aos meus alunos de mestrado brasileiros, quando se me queixam de que nos primeiros tempos da sua estada em Portugal têm grandes dificuldades em perceber os portugueses, justamente pelo modo como o português é falado entre nós, especialmente no "dialecto" lisboetês corrente nas estações de televisão.
Quando deixei o meu solícito dono do quiosque lisboeta do início desta crónica, pensei dizer-lhe em jeito de despedida, parafraseando aquele episódio brasileiro:
- Sabe, a língua portuguesa caminhou de norte para sul...
Logo desisti, porém. Achei que ele tomaria a observação como uma piada de mau gosto. Mas confesso que não me agrada nada a ideia de que, por força da força homogeneizadora da televisão, cada vez mais portugueses sejam "colonizados" pela maneira de falar lisboeta. E mais preocupado ainda fico quando penso que nessa altura provavelmente teremos de falar em inglês para nos entendermos com os espanhóis e - ai de nós! - talvez com os próprios brasileiros...
Contra o "sotaque único"
Baptista-Bastos, Diário Económico de 7 de Janeiro de 2000
APOSTILA - O meu amigo Vital Moreira escreveu, para o "Público", uma estranha crónica, na qual, com mão e ironia por igual pesadas, troça do sotaque lisboeta, a que chama inapropriadamente "lisboetês", no que seria, porventura, "lisboês." O Vital sabe que os registos fonológicos ou fonéticos obedecem à natureza constitutiva de cada território idiomático. Qual a razão do dislate intempestivo? "A minha pátria é a minha língua portuguesa", disse-o Mia Couto, de maneira exemplar, na revista "Pública", último domingo. O português falado (admito, até, que "mal falado") em Lisboa é-o assim tão, e tanto, quanto o de cada ilha dos Açores; ou do Alentejo, ou da meseta transmontana; ou do Bulhão, ou de Moçambique, ou de Timor Loro Sae, ou do Brasil, ou de sei lá quanto quê!? Menos em Coimbra, claro!, aí, a fala fia fino, feliz e fluída. Vital Moreira é dos homens mais lúcidos que conheço, e a sua curiosidade activa está a par da sua integridade moral e cultural. Eis porque o texto do meu velho amigo adquire uma espessura surpreendentemente "racista." Então, ó Vital, querias a globalização da fala?, o sotaque único? Deixa-nos comer as vogais, trocar os "conjuntos" de consoantes; deixa-nos dizer assim como assim falamos. A riqueza do idioma consiste nas suas variantes sintácticas e nos registos fonéticos. E as línguas são organismos vivos, que se remancham e remanejam a eles mesmos; que podem provir do norte ou do sul, que possuem uma qualidade miscível, de miscigenação, que deixam de ser pertença de, para se constituírem como leitos de nações. Depois, velho amigo, mais vale falar lisboês do que escrever protugueiro com embaraços nas preposições, tropeços nos pronomes e perplexidade no uso das conjunções subordinadas. Sei que sabes que eu sei que tu sabes. E, sans rancune (expressão idiomática lisboeta), abraça-te o teu BB, irremediavelmente de Lisboa, com o cerrado sotaque do bairro da Ajuda.
Crónica do Falar Lisboetês (Bis)
Vital Moreira, Público de 11 de Janeiro de 2000
Juro que não pratiquei nenhuma das malfeitorias que o estimado escritor e publicista Baptista Bastos me imputa com inesperada ligeireza, na sua coluna de sexta-feira passada no "Diário Económico", onde me acusa severamente de, na minha última crónica, ter troçado da fala lisboeta e de querer um sotaque único para a língua portuguesa.
Quanto à maneira de falar lisboeta, limitei-me a apontar duas ou três das suas particularidades mais notórias para os de fora, aliás de modo necessariamente incompleto (por exemplo, não referi a pronúncia de palavras como "rio", "frio" e outras semelhantes, em que o "i" tem um som breve e não um som longo, como no resto do país). Mas fi-lo com o mesmo benévolo desprendimento com que referiria as peculiaridades da fala portuense ou beirã, ou algarvia ou açoriana, para não citar as da minha região natal, onde o "v" não existe e onde "vinho" e "velho", por exemplo, soam a "binho" e "belho" (o que me valeu outrora forte troça dos meus condiscípulos do liceu, obrigando-me a uma oportuna reciclagem de pronúncia).
Não estão obviamente em causa as idiossincrasias locais nem o respeito pelas especificidades culturais, nesta como noutras áreas. Longe de mim defender qualquer unicitarismo linguístico. Trata-se, pelo contrário, de combater a consumação de um. O meu ponto tem a ver justamente com o facto de os particularismos lisboetas se estarem a generalizar na pronúncia corrente no país, em prejuízo do padrão geral até há pouco aceite (e dos demais dialectos e sotaques locais).
O que eu questiono é esta mudança "forçada", que consiste em universalizar o que era privativo de Lisboa, só porque esta domina os meios audiovisuais nacionais, que nesta matéria são hoje decisivos (para além do descaso do ensino de português nas escolas). O que eu contesto nesta pendência é o império do lisboetês (ou seja, o português à moda de Lisboa), que se vai expandindo e que vai reduzindo tudo o resto, tanto as demais falas locais ou regionais como a própria a língua padrão tradicional, a desprezíveis "provincianismos", que é a maneira de desqualificar, a partir de Lisboa, tudo o que se distinga da capital (e que na maior parte das vezes coincide com o mais crasso desconhecimento do resto do país).
Além disso, não posso deixar de lamentar essa evolução linguística também em termos de desenvolvimento do português como língua que não é somente nossa, não apenas porque a forma como se fala entre nós está a ficar inçada de sons francamente desagradáveis (uma sucessão de "ches" e de "jes"), mas também e sobretudo porque assim ela se vai tornando cada vez mais cerrada e incompreensível, mesmo no contexto da lusofonia, especialmente para os brasileiros. Não creio que seja de aplaudir esse resultado. Será que ainda partilhamos uma mesma língua quando a comunicação oral deixa de ser possível entre os seus falantes?
De resto, por mais encanto que encontremos na diversidade do modo de falar do Cais do Sodré (em lisboetês correntio pronuncie-se: "caich'dré"), das Avenidas Novas ou da linha de Cascais, isso não basta para apoiar a promoção de um particularismo linguístico ao estatuto de padrão linguístico nacional. Não consta, por exemplo, que o "Queen's English" esteja em vias de ser substituído como norma do inglês britânico pela fala das docas de Londres ou por qualquer outro localismo londrino. O que eu penso é que Lisboa não tem o direito de "impor" ao resto do país, a golpes de emissões de rádio e de televisão, o seu particular modo de pronunciar a língua de todos nós.
Tudo isto tem obviamente a ver com o domínio lisboeta da comunicação audiovisual de âmbito nacional, tanto em termos de "agenda" como em termos de pessoal. Segundo o seu critério corrente, tudo o que interessa a Lisboa há-de, por definição, importar necessariamente ao resto do país (mesmo que se trate, por exemplo, do estado do trânsito na capital, acerca do qual são regularmente informados todos os portugueses de manhã à noite, desde Melgaço a Vila Real de Santo António, se não à Calheta e à ilha do Corvo), enquanto que nada do que se passa fora de Lisboa pode pretender assumir relevância nacional, por maior que seja a sua importância absoluta.
Aqui há alguns anos, o incêndio da câmara municipal de Lisboa mobilizou as estações de rádio e televisão nacionais em prolongados "directos", transformando-o numa tragédia nacional. Se o mesmo desastre tivesse ocorrido, por exemplo, na câmara municipal de Coimbra, ainda que envolvesse o adjacente convento de Santa Cruz, provavelmente o facto não mereceria mais do uma menção de passagem num breve "flash" do noticiário regional do dia seguinte.
O mesmo unicitarismo lisboeta se nota, de resto, na paisagem humana das referidas estações nacionais, onde a percentagem de gente de fora de Lisboa e adjacências entre os apresentadores, locutores, comentaristas, convidados e "tutti quanti" não é seguramente superior à percentagem de portugueses na população de Macau, depois do fim da administração portuguesa. Apesar da criação do CNL, que aliás a solícita TV Cabo se encarrega de pôr em casa de todos os portugueses (não fossem eles perder o que se passa na capital), a RTP e a RDP (tal como as restantes estações supostamente nacionais) continuam a comportar-se, não como estações nacionais, que deveriam ser, por estatuto e vocação de serviço público nacional, mas sim como estações regionais de Lisboa. Não seria de mudarem o nome para RTL e RDL?
Crónica do Falar Lisboetês
Vital Moreira, Público de 4 de Janeiro de 2000
De súbito, o homem do quiosque de Lisboa a quem eu pedira os meus jornais habituais interpelou-me:
- O senhor é do Norte, não é?
Respondi-lhe que não, que nasci na Bairrada e que resido há quase 40 anos em Coimbra. Fitou-me perplexo. Logo compreendi que do ponto de vista de Lisboa tudo o que fique para cima de Caneças pertence ao Norte, uma vaga região que desce desde a Galiza até às portas da capital. Foi a minha vez de indagar porque é que me considerava oriundo do Norte. Respondeu de pronto que era pela forma como eu falava, querendo com isso significar obviamente que eu não falava a língua tal como se fala na capital, que para ele, presumivelmente, não poderia deixar de ser a forma autorizada de falar português.
Foi a primeira vez que tal me aconteceu. Julgava eu que falava um português padrão, normalmente identificado com a forma como se fala "grosso modo" entre Coimbra e Lisboa e cuja versão erudita foi sendo irradiada desde o século XVI pela Universidade de Coimbra, durante muitos séculos a única universidade portuguesa. Afinal via-me agora reduzido à patológica condição de falante de um dialecto do Norte, um desvio algo assim como a fala madeirense ou a açoriana.
Na verdade - logo me recordei -, não é preciso ser especialista para verificar as evidentes particularidades do falar alfacinha dominante. Por exemplo, "piscina" diz-se "pichina", "disciplina" diz-se "dichiplina". E a mesma anomalia de pronúncia se verifica geralmente em todos os grupos "sce" ou "sci": "crecher" em vez de "crescer", "seichentos" em vez de "seiscentos", e assim por diante.
O mesmo sucede quando uma palavra terminada em "s" é seguida de outra começada por "si" ou "se". Por exemplo, a expressão "os sintomas" sai algo parecido com "uchintomas", "dois sistemas" como "doichistemas". Ainda na mesma linha a própria pronúncia "de Lisboa" soa tipicamente a "L'jboa".
Outra divergência notória tem a ver com a pronúncia dos conjuntos "-elho" ou" -enho", que soam cada vez mais como "-ânho" ou "-âlho", como ocorre por exemplo em "coelho", "joelho", "velho", frequentemente ditos como "coâlho", "joâlho" e "vâlho".
Uma outra tendência cada vez mais vulgar é a de comer os sons, sobretudo a sílaba final, que fica reduzida a uma consoante aspirada. Por exemplo: "pov'" ou "continent'", em vez de "povo" e de "continente". Mas essa fonofagia não se limita às sílabas finais. Se se atentar na pronúncia da palavra "Portugal", ela soa muitas vezes como algo parecido com "P'rt'gâl".
O que é mais grave é que esta forma de falar lisboeta não se limita às classes populares, antes é compartilhada crescentemente por gente letrada e pela generalidade do mundo da comunicação audiovisual, estando por isso a expandir-se, sob a poderosa influência da rádio e da televisão.
Penso que não se trata de um desenvolvimento linguístico digno de aplauso. Este falar português, cada vez mais cheio de "chês" e de "jês", é francamente desagradável ao ouvido, afasta cada vez mais a pronúncia em relação à grafia das palavras e torna o português europeu uma língua de sonoridade exótica, cada vez mais incompreensível já não somente para os espanhóis (apesar da facilidade com que nós os entendemos a eles), mas inclusive para os brasileiros, cujo português mantém a pronúncia bem aberta das vogais e uma rigorosa separação de todas as sílabas das palavras.
A propósito do português do Brasil, vou contar uma pequena história que se passou comigo. Na minha primeira visita a esse país, fui uma vez convidado para um programa de televisão em Florianópolis (Santa Catarina). Logo me avisaram que precisava de falar devagar e tentar não comer os sons, sob pena de não ser compreendido pelo público brasileiro, que tem enormes dificuldades em compreender a língua comum, tal como falada correntemente em Portugal. Devo ter-me saído airosamente do desafio, porque, no final, já em "off", o entrevistador comentou: "O senhor fala muito bem português." (Queria ele dizer que eu tinha falado um português inteligível para o ouvido brasileiro.) Não me ocorreu melhor do que retorquir:
- Sabe, fomos nós que o inventámos...
Por vezes conto esta estória aos meus alunos de mestrado brasileiros, quando se me queixam de que nos primeiros tempos da sua estada em Portugal têm grandes dificuldades em perceber os portugueses, justamente pelo modo como o português é falado entre nós, especialmente no "dialecto" lisboetês corrente nas estações de televisão.
Quando deixei o meu solícito dono do quiosque lisboeta do início desta crónica, pensei dizer-lhe em jeito de despedida, parafraseando aquele episódio brasileiro:
- Sabe, a língua portuguesa caminhou de norte para sul...
Logo desisti, porém. Achei que ele tomaria a observação como uma piada de mau gosto. Mas confesso que não me agrada nada a ideia de que, por força da força homogeneizadora da televisão, cada vez mais portugueses sejam "colonizados" pela maneira de falar lisboeta. E mais preocupado ainda fico quando penso que nessa altura provavelmente teremos de falar em inglês para nos entendermos com os espanhóis e - ai de nós! - talvez com os próprios brasileiros...
Contra o "sotaque único"
Baptista-Bastos, Diário Económico de 7 de Janeiro de 2000
APOSTILA - O meu amigo Vital Moreira escreveu, para o "Público", uma estranha crónica, na qual, com mão e ironia por igual pesadas, troça do sotaque lisboeta, a que chama inapropriadamente "lisboetês", no que seria, porventura, "lisboês." O Vital sabe que os registos fonológicos ou fonéticos obedecem à natureza constitutiva de cada território idiomático. Qual a razão do dislate intempestivo? "A minha pátria é a minha língua portuguesa", disse-o Mia Couto, de maneira exemplar, na revista "Pública", último domingo. O português falado (admito, até, que "mal falado") em Lisboa é-o assim tão, e tanto, quanto o de cada ilha dos Açores; ou do Alentejo, ou da meseta transmontana; ou do Bulhão, ou de Moçambique, ou de Timor Loro Sae, ou do Brasil, ou de sei lá quanto quê!? Menos em Coimbra, claro!, aí, a fala fia fino, feliz e fluída. Vital Moreira é dos homens mais lúcidos que conheço, e a sua curiosidade activa está a par da sua integridade moral e cultural. Eis porque o texto do meu velho amigo adquire uma espessura surpreendentemente "racista." Então, ó Vital, querias a globalização da fala?, o sotaque único? Deixa-nos comer as vogais, trocar os "conjuntos" de consoantes; deixa-nos dizer assim como assim falamos. A riqueza do idioma consiste nas suas variantes sintácticas e nos registos fonéticos. E as línguas são organismos vivos, que se remancham e remanejam a eles mesmos; que podem provir do norte ou do sul, que possuem uma qualidade miscível, de miscigenação, que deixam de ser pertença de, para se constituírem como leitos de nações. Depois, velho amigo, mais vale falar lisboês do que escrever protugueiro com embaraços nas preposições, tropeços nos pronomes e perplexidade no uso das conjunções subordinadas. Sei que sabes que eu sei que tu sabes. E, sans rancune (expressão idiomática lisboeta), abraça-te o teu BB, irremediavelmente de Lisboa, com o cerrado sotaque do bairro da Ajuda.
Crónica do Falar Lisboetês (Bis)
Vital Moreira, Público de 11 de Janeiro de 2000
Juro que não pratiquei nenhuma das malfeitorias que o estimado escritor e publicista Baptista Bastos me imputa com inesperada ligeireza, na sua coluna de sexta-feira passada no "Diário Económico", onde me acusa severamente de, na minha última crónica, ter troçado da fala lisboeta e de querer um sotaque único para a língua portuguesa.
Quanto à maneira de falar lisboeta, limitei-me a apontar duas ou três das suas particularidades mais notórias para os de fora, aliás de modo necessariamente incompleto (por exemplo, não referi a pronúncia de palavras como "rio", "frio" e outras semelhantes, em que o "i" tem um som breve e não um som longo, como no resto do país). Mas fi-lo com o mesmo benévolo desprendimento com que referiria as peculiaridades da fala portuense ou beirã, ou algarvia ou açoriana, para não citar as da minha região natal, onde o "v" não existe e onde "vinho" e "velho", por exemplo, soam a "binho" e "belho" (o que me valeu outrora forte troça dos meus condiscípulos do liceu, obrigando-me a uma oportuna reciclagem de pronúncia).
Não estão obviamente em causa as idiossincrasias locais nem o respeito pelas especificidades culturais, nesta como noutras áreas. Longe de mim defender qualquer unicitarismo linguístico. Trata-se, pelo contrário, de combater a consumação de um. O meu ponto tem a ver justamente com o facto de os particularismos lisboetas se estarem a generalizar na pronúncia corrente no país, em prejuízo do padrão geral até há pouco aceite (e dos demais dialectos e sotaques locais).
O que eu questiono é esta mudança "forçada", que consiste em universalizar o que era privativo de Lisboa, só porque esta domina os meios audiovisuais nacionais, que nesta matéria são hoje decisivos (para além do descaso do ensino de português nas escolas). O que eu contesto nesta pendência é o império do lisboetês (ou seja, o português à moda de Lisboa), que se vai expandindo e que vai reduzindo tudo o resto, tanto as demais falas locais ou regionais como a própria a língua padrão tradicional, a desprezíveis "provincianismos", que é a maneira de desqualificar, a partir de Lisboa, tudo o que se distinga da capital (e que na maior parte das vezes coincide com o mais crasso desconhecimento do resto do país).
Além disso, não posso deixar de lamentar essa evolução linguística também em termos de desenvolvimento do português como língua que não é somente nossa, não apenas porque a forma como se fala entre nós está a ficar inçada de sons francamente desagradáveis (uma sucessão de "ches" e de "jes"), mas também e sobretudo porque assim ela se vai tornando cada vez mais cerrada e incompreensível, mesmo no contexto da lusofonia, especialmente para os brasileiros. Não creio que seja de aplaudir esse resultado. Será que ainda partilhamos uma mesma língua quando a comunicação oral deixa de ser possível entre os seus falantes?
De resto, por mais encanto que encontremos na diversidade do modo de falar do Cais do Sodré (em lisboetês correntio pronuncie-se: "caich'dré"), das Avenidas Novas ou da linha de Cascais, isso não basta para apoiar a promoção de um particularismo linguístico ao estatuto de padrão linguístico nacional. Não consta, por exemplo, que o "Queen's English" esteja em vias de ser substituído como norma do inglês britânico pela fala das docas de Londres ou por qualquer outro localismo londrino. O que eu penso é que Lisboa não tem o direito de "impor" ao resto do país, a golpes de emissões de rádio e de televisão, o seu particular modo de pronunciar a língua de todos nós.
Tudo isto tem obviamente a ver com o domínio lisboeta da comunicação audiovisual de âmbito nacional, tanto em termos de "agenda" como em termos de pessoal. Segundo o seu critério corrente, tudo o que interessa a Lisboa há-de, por definição, importar necessariamente ao resto do país (mesmo que se trate, por exemplo, do estado do trânsito na capital, acerca do qual são regularmente informados todos os portugueses de manhã à noite, desde Melgaço a Vila Real de Santo António, se não à Calheta e à ilha do Corvo), enquanto que nada do que se passa fora de Lisboa pode pretender assumir relevância nacional, por maior que seja a sua importância absoluta.
Aqui há alguns anos, o incêndio da câmara municipal de Lisboa mobilizou as estações de rádio e televisão nacionais em prolongados "directos", transformando-o numa tragédia nacional. Se o mesmo desastre tivesse ocorrido, por exemplo, na câmara municipal de Coimbra, ainda que envolvesse o adjacente convento de Santa Cruz, provavelmente o facto não mereceria mais do uma menção de passagem num breve "flash" do noticiário regional do dia seguinte.
O mesmo unicitarismo lisboeta se nota, de resto, na paisagem humana das referidas estações nacionais, onde a percentagem de gente de fora de Lisboa e adjacências entre os apresentadores, locutores, comentaristas, convidados e "tutti quanti" não é seguramente superior à percentagem de portugueses na população de Macau, depois do fim da administração portuguesa. Apesar da criação do CNL, que aliás a solícita TV Cabo se encarrega de pôr em casa de todos os portugueses (não fossem eles perder o que se passa na capital), a RTP e a RDP (tal como as restantes estações supostamente nacionais) continuam a comportar-se, não como estações nacionais, que deveriam ser, por estatuto e vocação de serviço público nacional, mas sim como estações regionais de Lisboa. Não seria de mudarem o nome para RTL e RDL?





2 Comentários:
Gosto de saber que tenho um amigo, agora lisboeta, que defende que nem toda a gente seja obrigado a ouvir aquelas barbaridades que se dizem na tv, como a creche ou o coalho, ou a pior de todas, pograma...
foi muito �til l�er a disputa entre dois portugueses para n�s estudantes de porugu�s em buenos aires e considerar que � dicriminat�rio escolher nossa l�ngua
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