• Café das Sextas: O imaginável

    sexta-feira, junho 23, 2006

    O imaginável

    "Imagina um átomo de hidrogénio, Cente. O átomo mais básico: um núcleo com um único electrão que gira em volta dele. Imagina depois que ampliaste o núcleo cinco milhões de milhões de vezes, até ter o tamanho aproximado de uma moeda de um peso. À escala, o electrão estaria agora a quase um quilómetro.

    Um quilómetro entre o núcleo e electrão, se o núcleo tivesse o tamanho de uma moeda de um peso. Num átomo quase nada há para ver, mesmo que se pudesse ver. Quase tudo vazio. Tanto espaço para andar.

    Tanto espaço que, se disparássemos um neutrão num bloco de chumbo com a espessura de um ano-luz, havia cinquenta por cento de hipóteses de o neutrão não colidir com nada e sair pelo outro lado.

    Boas hipóteses de sobrevivência, se formos um bloco de chumbo com a espessura de um ano-luz, a tentar rebentar os miolos com uma arma de neutrões.

    Boas hipóteses de sobrevivência, também, para o caso de sermos um neutrão suicida, a saltar do trigésimo andar das Legaspi Towers. Batemos no asfalto e atravessamo-lo calmamente. Atravessamos o asfalto, a terra, as camadas rochosas, o planeta inteiro e continuamos.

    Boas hipóteses de sobreviver ao suicídio para o inimaginavelmente grande e para o inimaginavelmente pequeno.

    Seria lícito esperar que o mesmo fosse verdade para uma rapariga que salta do trigésimo andar das Legaspi Towers. Com todo aquele espaço, com todo aquele vazio e espaço para andar, podíamos esperar que os átomos da rapariga e os átomos do asfalto conspirassem para a deixar passar sã e salva.

    Parece razoável. Mas sucede que, para o imaginável, as hipóteses são más."

    Alex Garland, O Tesseract. Quetzal Editores, pp. 207-208.

    P.S: O autor do livro de onde retirei este excerto, confunde o tesseract (ou hipercubo, que está para o cubo assim como cubo está para o quadrado) com o objecto tridimensional que resulta do "espalmamento" do próprio.

    0 Comentários:

    Links para este post

    Criar uma hiperligação

    Enviar um comentário

    << Home